terça-feira, 18 de abril de 2023

O que é ser moderno?

A terra não é plana: o mundo é muito maior do que se imaginava!

Mapa-múndi de 1753 com a rota da circum-navegação iniciada por Fernão de Magalhães, em 1519, e concluída por Juan Sebastían El Cano 1522

Em um feito inédito, o português Fernão de Magalhães, a serviço da Coroa espanhola, embarcou em uma viagem que comprovaria um fato que algumas pessoas teimam em contestar ainda hoje: a terra é uma esfera. Crendo na existência de um estreito que levaria as embarcações que comandava às terras das especiarias, Magalhães atravessou o oceano Atlântico e margeou toda a América do Sul até encontrar a passagem que leva hoje o seu nome: o Estreito de Magalhães. Desembocou no oceano Pacífico, perdeu embarcações e homens na travessia, e, finalmente, chegou na Indonésia, mais especificamente, em Moluca, a "Ilha das Especiarias". Morreu antes de voltar à Espanha e receber as honras merecidas pelo feito, a viagem foi concluída pelo El Cano, mas provou que era possível dar a volta ao mundo.

O século XVI, marcado por grandes descobertas marítimas, registra, assim, a primeira mundialização de um globo, agora integrado com a expansão dos horizontes europeus, nas palavras de Jean Delumeau, "o nascimento de Europas fora da Europa". A todo instante, novas rotas surgem, novos caminhos são traçados e, junto com essas mudanças, nasce uma nova experiência. Os europeus descobrem, simultaneamente, novas línguas, saberes, modos de expressão e culturas que se formaram prósperas e ricas sem que os demais continentes as conhecessem. O mundos são comparados, as distâncias são medidas, os tempos e temporalidades interrogados e as experiências se multiplicam exponencialmente. Gruzinski fala de um "nomadismo dos homens da Monarquia". O homem moderno é, portanto, marcado por novos comportamentos, por uma maior facilidade de deixar um lugar pelo outro, de circular, apesar dos obstáculos, pelos mundos das Monarquias.

Aprendemos sobre o que esses viajantes europeus levaram dos lugares em que aportaram: madeira, plantas, animais silvestres, minérios valiosos, pessoas e novas ideias para confrontarem seus conhecimentos. Para entender o que trouxeram, precisamos saber quem eles eram, como pensavam e se percebiam. Devido à divisão quadripartite da História (Idades Antiga, Média, Moderna e Contemporânea) costumamos chamar esses sujeitos de “os modernos”. Será que eles diferiam completamente dos medievais?

É comum que se pense que no período medieval não havia interesse em entender o mundo de forma racional, mas pensadores como Pedro Abelardo (grande amor da erudita Heloísa) já criticavam os integrantes do clero pelas tentativas de impedir que discussões assim ocorressem. É entre esses intelectuais educados dentro dos mosteiros e universidades ligadas à Igreja que o Humanismo começa a ser cultivado. Apesar desses conflitos, os autores humanistas e demais artistas, não buscavam derrubar a religiosidade, mas repensar a humanidade e o funcionamento do mundo. Assim, trouxeram seus questionamentos sobre “o bom selvagem”, sobre pecado e inocência, sobre o lugar da Europa e do homem na Terra. Podemos perceber que esses sujeitos possuíam muitas incertezas e estavam dispostos a discuti-las a partir das informações que circulavam entre continentes.

Mas a final o que seria um ser moderno? Ao compararmos os modos de viver durante a Idade Média e a Moderna, iremos perceber muitos pontos em comum e muitos distintos. O sistema feudal começa a dar lugar a um novo sistema, a nobreza e o clero começam a perder a hegemonia do poder e surge e burguesia como uma nova classe para disputar os poderes econômicos, políticos e culturais, mas não deixando de lado muitos valores da nobreza e clero. No campo intelectual podemos ver figuras como Maquiavel formular uma estrutura politica e governamental. Vemos a religião católica ser separada da politica em algumas partes da Europa, entretanto outras religiões aparecem com a falsa impressão de imparcialidade politica, como o calvinismo e luteranismo.

    No século XVI tem a expansão marítima, os encontros violentos e controversos entre os povos indígenas da américas e o discurso da negação ou aceitação da humanidade desses povos por parte dos colonizadores, como podemos observar no intenso debate entre Las Casas e Sepulveda. Nesse período não só o protestantismo questiona os dogmas da igreja católicas próprios religiosos dentro da igreja Católica também fazem isso a exemplo de Juana Inez, uma mexicana que teve uma postura contrario ao discurso patriarcal cristão, sendo uma mulher que teve acesso a estudos. É nesse período que o estudo deixa de ser algo exclusivo da igreja e da nobreza, mas ainda restrito para aqueles que tinham riquezas, os excluídos socialmente tinham diversas barreiras para alcançar não só a ascensão social, como também o conhecimento. O conhecimento a qual nos referimos aqui não é o de saber compreender o mundo, a cultura, medicina, politica e religiosidade, mas o de saber ler e escrever na língua do colonizador ou do grupo dominante.

    O mercantilismo se torna um novo sistema econômico com maior força e influencia no mundo Europeu e colonial e a sua base de manutenção é o comercio de escravos. O negro é posto como um ser coisificado, sem alma e sem dignidade. Assim como os indígenas, o negro também faz parte do que é ser moderno, até porque quando se pensam em um sujeito moderno, logo vem a imagem de uma pessoa branca e europeia, mas não de um indígena ou negro. Afinal, o ser moderno era igual para todos? A historiografia permitiu incluir os negros e indígenas como sujeitos com identidade produzidas na modernidade? Embora os povos africanos sejam mais antigos que os europeus, mas o ser negro toma maior forma na modernidade, assim como os indígenas. O Ser moderno é apenas um ser aos moldes europeu ou todos os corpos que contribuíram para a estruturação da modernidade e não sendo um Ser moderno, mas Seres modernos ou modos de ser moderno ? Talvez esses questionamentos sejam bastante densos, então vamos relembrar alguns conceitos da modernidade.


Que tal revisar um pouco do que foi o Humanismo?

 


Referências

GRUZINSKI, Serge. O historiador, o macaco e a centaura: a “história cultural” no novo milênio. Estudos Avançados 17 (dezembro de 2003): 321–42. https://doi.org/10.1590/S0103-40142003000300020.

MICELI, P. História moderna. 1a edição ed. [s.l.] Contexto, 2013. 

PINSKY, J. A escravidão no Brasil. 3a edição ed. [s.l.] Contexto, 1996. 


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